O resto é silêncio.
Há dois dias assisti Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, e a experiência continua reverberando em mim.
É difícil explicar o que senti ao final do filme. Não era exatamente tristeza. O silêncio da sala, a emoção coletiva, o choro doído ... senti que ainda somos humanos. (recomendo assistir numa sala de cinema, coletivamente).
O filme não me contou a história da morte de uma criança. Ele me ensinou mais sobre o luto: esse buraco que se abre depois do fim. Um tempo estranho em que o mundo segue em movimento, mas por dentro tudo fica fora de lugar. As coisas acontecem, os dias passam e, ainda assim, nada parece encaixar como antes.
Em Hamnet, reconhecemos em nós esse desejo quase secreto de discutir com o tempo, de tentar reverter o irreversível. A gente guarda restos, volta às mesmas lembranças, inventa pequenas ficções internas em que a perda (real ou simbólica) ainda não terminou de acontecer.
O filme de Chloé Zhao não narra o luto como uma etapa a ser vencida. Ele mostra como cada um tenta reaprender a existir depois da perda. Cada um inventando uma sobrevivência possível.
Saí do cinema mais apaixonado pela arte e pela psicanálise.
Arte e psicanálise não servem para resolver as questões humanas, muito menos para explicar o mundo.
Ambas não nos tiram da tragédia, mas nos empurram para dentro dela com mais lucidez. Em vez de fecharem a ferida, mantém aberta o suficiente para que alguma coisa surja dali.
Elas “curam” não porque consertam, mas porque acolhem.
O resto é silêncio.