Franz Kafka dizia que “um livro tem de ser o machado para o mar congelado dentro de nós”. Alguns livros fazem exatamente isso. A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, é um deles.

Ivan Ilitch morre. A capa já entrega. A pergunta importante não é se ele morreu. A pergunta é outra: ele viveu?

Tolstói não fala apenas da morte física. Ele fala da morte em vida que nasce da adaptação constante. Ivan fez tudo certo. Escolheu o caminho seguro, evitou conflitos, cumpriu o papel, obedeceu. Obedeceu demais. Nunca perguntou se aquilo fazia sentido para ele. Quando a doença chega, só escancara o que já estava lá: uma vida vivida para fora e vazia por dentro.

É aí que o livro pega. A gente se enxerga na agonia do protagonista. É como morrer um pouco com ele, arrependidos por uma existência de aparência, mais ocupada em competir com o sucesso dos outros do que em tocar os próprios desejos.

No fim, sobra a pergunta que desmonta qualquer adulto honesto: minha vida fez sentido para mim?

A lição parece um clichê, mas quase ninguém pratica. Viver com intensidade. Com franqueza. Com honestidade consigo. Com coragem. Menos pose, mais verdade. Menos papel, mais vida.

Se reconheceu algo de você aqui, vale abrir espaço para isso. A psicanálise ajuda a sustentar a pergunta e a atravessar o que ela traz.